22 outubro 2022

De onde surgiu Deus?

 



A Eternidade de Deus

A eternidade de Deus pode ser definida assim: Deus não tem princípio nem fim nem sucessão de momentos no seu próprio ser, e percebe todo o tempo com igual realismo; ele, porém, percebe os acontecimentos no tempo e age no tempo.

Às vezes essa doutrina é chamada doutrina da infinitude de Deus com respeito ao tempo. Ser "infinito" é ser "ilimitado", e a doutrina ensina que o tempo não impõe limites a Deus.
Essa doutrina está também associada à imutabilidade de Deus. Se é verdade que Deus não muda, então necessariamente devemos dizer que o tempo não muda a Deus: não tem efeito sobre seu ser, suas perfeições, seus propósitos e suas promessas. Então, isso significa que o tempo não exerce influência, por exemplo, sobre o conhecimento divino. Deus jamais aprende coisas novas nem nada esquece, pois isso significaria uma mudança no seu conhecimento perfeito. Isso implica também que a passagem do tempo nada acrescenta nem nada subtrai ao conhecimento de Deus: ele conhece todas as coisas passadas, presentes e futuras, e as conhece com igual realismo.
Deus é eterno no seu próprio ser. O fato de Deus não ter princípio nem fim está explícito em Salmos 90.2: "Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus'. Do mesmo modo, em Jó 36.26, Eliú diz sobre Deus: “... o número dos seus anos não se pode calcular”.
A eternidade de Deus é também afirmada por passagens que abordam o fato de que Deus sempre é ou existe. "Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-poderoso" (Ap 1.8; 4.8).
Também está indicada no ousado uso por parte de Jesus, quando de uma resposta aos seus adversários judeus, de um verbo no tempo presente que sugere contínua existência presente: ‘‘Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8.58). Essa afirmação é em si mesma uma explícita afirmação do nome de Deus, “Eu Sou o Que Sou!”, de Êxodo 3.14, nome que também implica contínua existência presente: Deus é o eterno "Eu Sou", aquele que existe eternamente.
O fato de Deus jamais ter começado a existir pode também ser deduzido da verdade de que Deus criou todas as coisas e de que ele é um espírito imaterial. Antes que Deus fizesse o universo, não havia matéria, mas então ele criou todas as coisas (Gn 1.1; Jo 1.3; 1Co 8.6; Cl 1.16; Hb 1.2). O estudo da física nos diz que a matéria, o tempo e o espaço precisam ocorrer ao mesmo tempo: se não há matéria, não pode haver nem espaço nem tempo. Assim, antes que Deus criasse o universo, não havia "tempo", pelo menos não no sentido de uma sucessão de momentos. Portanto, quando Deus criou o universo, também criou o tempo. Quando Deus começou a criar o universo, o tempo começou, e começou a haver uma sucessão de momentos e acontecimentos encadeados. Mas antes de haver um universo, e antes de haver o tempo, Deus sempre existiu, sem princípio e sem ser influenciado pelo tempo. E o tempo, portanto, não tem existência por si mesmo, mas, como o resto da criação, depende do eterno ser divino e do eterno poder divino para continuar existindo.

Deus percebe todo o tempo com igual realismo. É em certo sentido mais fácil para nós compreender que Deus percebe todo o tempo com igual realismo. Lemos em Salmos 90.4: “Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite”. Às vezes temos dificuldade para relembrar acontecimentos ocorridos há algumas semanas, meses ou anos. Lembramos acontecimentos recentes com mais realismo, e a clareza da nossa memória se esvai com o passar do tempo. Ainda que nos fosse possível viver "mil anos", lembraríamos bem poucos acontecimentos ocorridos centenas de anos antes, e a clareza dessa lembrança seria bem pouco nítida. Mas aqui as Escrituras nos dizem que Deus percebe mil anos “como o dia de ontem”. Ele consegue se lembrar detalhadamente de todos os acontecimentos de mil anos atrás com clareza pelos menos tão nítida como quando recordamos os eventos de "ontem". De fato, para ele mil anos são como “a vigília da noite”, o período de três ou quatro horas durante o qual uma sentinela deveria vigiar. Tal período de tempo passava rápido e todos os acontecimentos eram facilmente relembrados. Porém, é assim que Deus percebe um período de mil anos.
Quando percebemos que a expressão "mil anos" não subentende que Deus esquece as coisas após 1100 ou 1200 anos, mas antes exprime um tempo tão longo quanto se possa imaginar, fica evidente que Deus enxerga toda a história passada com grande clareza e realismo: todo o tempo desde a criação é para Deus como se tivesse acabado de acontecer. E sempre terá na consciência de Deus a mesma clareza, ao longo dos milhões de anos da futura eternidade.
No Novo Testamento, Pedro nos diz: "... para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia" (2Pe 3.8). A segunda metade dessa afirmação já fora feita no Salmo 90, mas a primeira introduz uma consideração a mais: "um dia é como mil anos", ou seja, qualquer dia, do ponto de vista divino, parece durar "mil anos". É como se esse dia jamais terminasse, mas estivesse sempre sendo vivido. Novamente, como "mil anos" é uma expressão figurada que exprime "um tempo tão longo quanto se possa imaginar", ou "toda a história", podemos dizer com base nesse versículo que qualquer dia parece a Deus estar eternamente presente na sua consciência.
Juntando as duas considerações, podemos dizer o seguinte: do ponto de vista de Deus, qualquer período extremamente longo de tempo é como se tivesse acabado de acontecer. E qualquer período muito curto de tempo (um dia, por exemplo) para Deus parece durar para sempre: jamais deixar de ser "presente" na sua consciência. Assim, Deus vê e conhece todos os eventos passados, presentes e futuros com igual realismo. Isso não nos deve fazer pensar que Deus não vê os eventos no tempo nem age no tempo, mas justamente o contrário: Deus é o Senhor e Soberano eterno da história, vendo-a com mais clareza e nela agindo mais decisivamente do que qualquer outro. Mas, tendo dito isso, ainda precisamos afirmar que esses versículos falam da relação de Deus com o tempo de um modo que não experimentamos, nem podemos experimentar; a experiência divina do tempo não é apenas um paciente suportar de éons de duração infinita; antes, ele tem uma vivência qualitativamente distinta do tempo em comparação conosco. Isso é compatível com a idéia de que no seu próprio ser, Deus é eterno; não experimenta uma sucessão de momentos. Essa tem sido a visão dominante da ortodoxia cristã ao longo da história da igreja, embora tenha sido muitas vezes desafiada, e mesmo hoje muitos teólogos a neguem.

Sempre existiremos no tempo. Será que algum dia participaremos da eternidade de Deus? Especificamente, no novo céu e na nova terra que hão de vir, será que o tempo ainda existirá? Alguns supõem que não. E lemos nas Escrituras: ''A cidade não precisa nem do sol, nem da lua, para lhe darem claridade, pois a glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada [...] porque, nela, não haverá noite" (Ap 21.23, 25; cf. 22.5).
No entanto, não é verdade dizer que o céu será "intemporal" ou alheio à presença do tempo ou à passagem do tempo. Antes, como somos criaturas finitas, necessariamente experimentaremos os acontecimentos uns após os outros. Mesmo a passagem que fala sobre a inexistência da noite no céu também menciona o fato de que os reis da terra levarão à cidade celeste "a glória e a honra das nações" (Ap 21.26). Lemos a respeito da luz da cidade celeste: ''As nações andarão mediante a sua luz" (Ap 21.24). Essas atividades de levar coisas até a cidade celeste e andar mediante a luz da cidade celeste implicam que os acontecimentos vêm uns após os outros. Algo está fora da cidade celeste e, depois, num momento posterior do tempo, essa coisa faz parte da glória e da honra das nações levadas até a cidade celeste. O ato de depositar a coroa diante do trono de Deus (Ap 4.10) exige que num momento a pessoa esteja com a coroa e, num momento posterior, essa coroa seja depositada diante do trono. O ato de entoar um novo cântico de louvor perante Deus no céu exige que uma palavra seja cantada depois da outra. De fato, lemos que a "árvore da vida" da cidade celeste dá "o seu fruto de mês em mês" (Ap 22.2), o que implica uma passagem regular de tempo e a ocorrência dos eventos no tempo.
Portanto, ainda haverá uma sucessão de momentos encadeados, e as coisas continuarão a acontecer umas após as outras no céu. Experimentaremos vida eterna não numa exata reprodução do atributo divino da eternidade, mas antes numa duração infindável de tempo; nós, como povo de Deus, vivenciaremos plenitude de alegria na presença de Deus por toda a eternidade - não no sentido de que já não experimentaremos o tempo, mas sim no sentido de que nossa vida com ele continuará para sempre: "Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos" (Ap 22.5).
Um pouco mais problemático é o status de Jesus como deidade, ainda que a Escritura também o identifique como Deus. Uma referência chave à deidade de Cristo Jesus é encontrada em Filipenses 2. Ao que tudo indica, nos versículos 5-11, Cristo toma o que era um hino da igreja primitiva e o usa como base para pedir aos leitores que pratiquem a humildade. Paulo observa que “ele [Jesus], subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus” (v. 6). A palavra aqui traduzida por “forma” é morphê. Esse termo, tanto no grego clássico como no bíblico, significa “conjunto de características que fazem com que uma coisa seja o que é”. Denotando a genuína natureza de uma coisa, morphê contrasta com schêma, que também é em geral traduzida por “forma”, mas no sentido de formato ou aparência superficial, em lugar de substância. O uso de morphê nessa passagem, refletindo a fé da igreja primitiva, insinua uma profunda confiança na plena deidade de Cristo.

Outra passagem significativa é Hebreus 1. O autor, cuja identidade nos é desconhecida, está escrevendo para um grupo de cristãos hebreus. Ele (ou ela) faz várias afirmações que implicam fortemente a plena deidade do Filho. Nos versículos iniciais, o autor argumenta que o Filho é superior aos anjos nota que Deus tem falado por meio do Filho, destacou-o como herdeiro de todas as coisas e fez o universo por meio dele (v.2). O autor descreve, então, o Filho como o “resplendor da glória de Deus” (NVI) e a “expressão exata do seu ser”. Embora talvez possa se alegar que isso só afirma que Deus se revelou por meio do Filho, não que o Filho é Deus, o contexto sugere outra coisa. Além de se identificar como o Pai daquele a quem chama Filho (v. 5), Deus é cifrado no versículo 8 (do Sl 45.6) dirigindo-se ao Filho como “Deus” e no versículo 10 como “Senhor” (do Sl 102.25). O autor conclui observando que Deus disse ao Filho: “Assenta-te à minha direita” (do Sl 110.1). É significativo que o autor bíblico dirige-se a cristãos hebreus, que com certeza estariam imbuídos de monoteísmo, de maneira que inegavelmente afirmam a deidade de Jesus e sua igualdade com o Pai.
Uma consideração final sobre a autoconsciência de Jesus. Devemos notar que Jesus a afirmou diretamente sua deidade. Ele nunca disse simplesmente: “Sou Deus”. Mas várias pistas sugerem que era assim, de fato, que ele se via. Ele afirmava possuir o que pertence unicamente a Deus. Ele falou dos anjos de Deus (Lc 12.8,9; 15.10) como se fossem seus (Mt 13.41). Ele considerava o reino de Deus (Mt 12.28; 19.14, 24; 21.31, 43) e os eleitos de Deus (Mc 13.20) como de sua propriedade. Além disso, ele alegou perdoar pecados (Mc 2.8-10). Os judeus reconheciam que somente Deus podia perdoar pecados e, por conseguinte, acusaram Jesus de blasfêmia. Ele também reivindicava poder para julgar o mundo (Mt 25.31) e reinar sobre ele (Mt 24.30; Mc 14.62).

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